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Seleção de Projetos

Descentralizada

Uma novidade permeou o último processo de concorrência pública dos projetos de Organizações da Sociedade Civil (OSC) a serem financiados pela Coordenação Nacional de DST/Aids (CNDST/Aids), a partir do acordo de empréstimo com o Banco Mundial (Aids 2). Seis estados realizaram esse processo de forma descentralizada, ou seja, com autonomia para gerir a supervisão técnica do processo: São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Ceará, Paraná e Rio Grande do Sul. Segundo Cristina Câmara, responsável pela Unidade de Articulação com a Sociedade Civil e Direitos Humanos - SCDH -, da Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, essa descentralização foi estabelecida considerando-se a coerência com os princípios do Sistema Único de Saúde, dentre os quais está prevista a participação mais efetiva de estados e municípios. Mas o controle financeiro ainda permanece sob a responsabilidade da Coordenação Nacional.

Esses estados foram selecionados para dar início ao processo de descentralização porque se enquadraram nos critérios estabelecidos pelo Ministério: as coordenações estaduais deveriam ter condições técnicas de pessoal e vontade política para participar do processo, esses programas teriam de estar em dia com o planejamento anual de parceria com a CNDST/Aids (POA) e o estado deveria ter um fórum de ONG/Aids, garantindo, assim, o acompanhamento da comunidade nas ações estabelecidas no âmbito nacional. Definidos os estados, a CNDST/Aids realizou algumas oficinas com a participação das coordenações estaduais, coordenações municipais das capitais e fóruns de ONGs/Aids dos locais selecionados. Nessas oficinas, foram discutidos critérios e prioridades para a realização do processo. A representante do Ministério ainda não realizou uma avaliação desse novo processo de seleção, mas assegura que a resposta dos estados foi bastante positiva. Segundo Câmara, antes, uma das reclamações dos programas estaduais e municipais era que as OSC acabavam criando um vínculo direto com a Coordenação Nacional e ficavam, muitas vezes, sem informação dos projetos que eram desenvolvidos dentro dos próprios estados. Por parte da OSC, era necessário criar a oportunidade de uma interferência mais direta nas ações estabelecidas por estados e municípios. "O processo de concorrência é um ponto de partida para que a discussão sobre como manter as ações de organizações da sociedade civil que atuam no enfrentamento da Aids se intensifique, tornando mais transparente o compromisso e as ações dos governos locais", diz Câmara, que está agendando uma reunião para a primeira avaliação do processo.

A Coordenação Nacional pretende ampliar este processo de descentralização para outros estados para a próxima concorrência que acontecerá no segundo semestre deste ano. Porém, Cristina Câmara reconhece que esta não será uma tarefa fácil, uma vez que há lugares onde a Aids não é tratada como prioridade e a atenção às ações realizadas pela sociedade organizada nem sempre são alvos de interesse.

Mudanças internas na CNDST/Aids

A descentralização não atingiu apenas alguns estados da Federação. Internamente, a CNDST/Aids também promoveu mudanças na estrutura de acompanhamento dos projetos das ONGs. Antes, todos os projetos aprovados ficavam sob responsabilidade da Unidade de Articulação das ONGs. Agora, eles estão distribuídos. Por exemplo, projetos ligados à mulher estão sob o acompanhamento da Unidade de Prevenção, assim como os relacionados a profissionais do sexo, redução de danos etc. Projetos voltados à reinserção de pessoas que vivem com Aids e às casas de apoio estão sob a responsabilidade da Unidade de Assistência, enquanto a Assessoria de Comunicação está em contato direto com projetos relacionados à comunicação de uma maneira geral. Com isso, a CNDST/Aids pretende estabelecer vínculos mais estreitos entre os técnicos do Ministério que acompanham esses segmentos, incluindo as unidades que acompanham finanças e prestação de contas. A SCDH está responsável pelos projetos da área jurídica, eventos e sustentabilidade de ONGs, além de continuar promovendo a articulação com a sociedade civil e o acompanhamento da concorrência para a seleção de projetos de OSC. A área de Direitos Humanos também é coberta pela SCDH, que se responsabiliza pelas ações da Rede de Direitos Humanos em HIV/Aids.

CE e SP: Estados avaliam descentralização

Os estados do Ceará e São Paulo participaram desse processo de descentralização. Na avaliação dos representantes desses estados, a iniciativa da Coordenação Nacional de DST/Aids foi muito importante. Vilma Cervantes, do Programa Estadual de DST/Aids de São Paulo, afirma que o principal ganho para o estado foi a aproximação entre a comunidade e os gestores locais. "Para organizarmos a concorrência descentralizada, formamos um grupo de trabalho com representantes de ONGs, municípios, direções regionais de saúde e Programa Estadual de DST/Aids. As principais tarefas do grupo foram discutir e elaborar o edital, indicar nomes para a composição do Comitê Seletivo Externo e acompanhar os trabalhos desse comitê", explica Cervantes. Telma Alves Martins, coordenadora do Programa Estadual de DST/Aids do Ceará, também acredita que, com a descentralização, foi possível aproximar os governos locais e a sociedade civil, através da seleção de propostas que estivessem dentro das prioridades da região. Na avaliação de Martins, a participação da comunidade no processo foi bastante intensa: "No total, foram apresentados 41 projetos para seleção, bem mais do que esperávamos. Alguns deles, embora fossem bons, não foram selecionados nesta primeira concorrência, mas poderão posteriormente ter apoio com os recursos do POA". O único critério estabelecido para seleção dos projetos no Ceará foi que a ONG concorrente deveria ter um ano de existência. "Incluímos esse critério porque já verificamos aqui no Ceará a criação de uma ONG cujo único propósito era conseguir financiamento do POA. Esta ONG não tinha a menor estrutura para funcionar nem pessoal treinado em DST/Aids", explica a coordenadora do Programa Estadual.

Em São Paulo, os critérios de seleção dos projetos foram divididos em quatro áreas de atuação - apoio às pessoas vivendo com HIV/Aids e sua rede de socialização; intervenção comportamental; informação, educação e comunicação e desenvolvimento institucional e intercâmbio -, sendo que os projetos deveriam enfocar os segmentos mais vulneráveis da população no estado. Segundo Vilma Cervantes, a maioria das OSCs reagiu favoravelmente ao processo de descentralização, principalmente porque puderam receber um acompanhamento mais individualizado, tanto através do treinamento e oficinas quanto nas reformulações técnicas e financeiras envolvendo o próprio projeto.

Maior desafio: monitoramento e avaliação dos projetos

O maior obstáculo apontado pela representante do Ceará foi a dificuldade em se conseguir pessoal qualificado para participar do processo. "Tivemos muita dificuldade ao selecionar pessoas para o Comitê de Seleção que não tivessem algum tipo de envolvimento com ONGs. Também foi difícil nós encontrarmos pessoas com disponibilidade de tempo para o julgamento dos projetos no prazo determinado pela Coordenação", avalia Telma Martins.

Vilma Cervantes aponta como principal dificuldade em São Paulo a falta de infra-estrutura e de disponibilidade de recursos humanos para a realização do processo.

Diante desses obstáculos, a coordenadora do Programa Estadual do Ceará faz um alerta aos estados que ainda não realizaram a seleção descentralizada. Segundo ela, esses estados devem promovê-la o mais rápido possível. Porém, além disso, é necessário um reforço das equipes. "Com certeza o mais difícil não será o processo de concorrência, mas o monitoramento e avaliação dos projetos", diz Martins. Outra observação da coordenadora do Programa Estadual do Ceará: "Façam uma boa divulgação do Processo de Concorrência, principalmente no interior, onde a notícia nem sempre chega tão facilmente".

Seis estados promovem a seleção de projetos elaborados por Organizações da Sociedade Civil (OSC) que serão financiados pela Coordenação Nacional de DST/Aids

PROJETOS APROVADOS
Estados Nº de Projetos
RS 25
SC 19
PR 19
SP 60
RJ 46
CE 16
Demais 99

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