Agentes Pares

Atualizado: 5 de Jan de 2021

A metodologia de agentes pares é voltada para a educação e promoção da saúde que surgiu a partir da primeira onda da epidemia do HIV/Aids no mundo. Como sugere o próprio nome uma das características fundamentais da metodologia de Agentes Pares é que ela seja realizada entre pessoas de um mesmo grupo, seja ele por identidade de gênero, sexo, etnia, ou pertencimento a grupos e comunidades identitárias e de luta por direitos.


A metodologia começou a ser massivamente utilizada a partir do final da década de 1980 ao início dos 1990, como resultado da organização e leitura do movimento LGBT dos EUA, sobre a então emergente pandemia por HIV/AIDS, que assombrava ao mundo pelo seu potencial de impacto em milhões de vidas. O movimento LGBT americano buscava construir alternativas de prevenção num cenário que então se desenhava apocalíptico, especialmente para a comunidade LGBT.


A metodologia propunha então disseminar informações corretas e seguras sobre o HIV/AIDS e ampliar redes de ajuda e solidariedade com os afetados pela doença. Entendendo que havia resistência e falta de hábito de pensar a saúde sexual naquele momento e que havia uma dificuldade para a adesão voluntária ao uso do preservativo em todas as relações sexuais, foi a metodologia de agentes pares que permitiu falar de igual para igual para entender as problemáticas, para gerar identificação, solidariedade e poder de convencimento entre as pessoas afetadas e as que potencialmente estavam em maior risco para a transmissão do vírus: jovem com jovem, mulher com mulher, homem com homem, homem gay com homem gay.


O Gapa-BA a partir de sua fundação em 1988, adotou desde os primeiros projetos que desenvolveu a metodologia de agentes pares. Assim, nosso primeiro projeto voltado para públicos específicos teve como propósito principal aumentar a capacidade de lideranças comunitárias a ajudar seus membros a entenderem os riscos e adotarem medidas de prevenção a Aids, teve como base a metodologia de agentes pares.


Em 1992, outro projeto conduzido pelo Gapa teve como base a metodologia de agente par, a saber, as ações voltadas a formação de professores de escolas públicas de Salvador a fim de treinar outros professores que poderiam, através das suas práticas de docência e municiados de informações e metodologias participativas, informar os discentes sobre o HIV/Aids, sobre prevenção, testes, o exercício da solidariedade, as possibilidades de tratamento, que ainda eram muito poucas na época. O projeto em sua segunda etapa teve como público prioritário os jovens, para formá-los e para que desenvolvessem habilidades de comunicação e acolhimento junto a outros jovens, objetivando fazer chegar a este público as estratégias de prevenção ao HIV/Aids. Compreendíamos que a base da metodologia de agentes pares encontrava no jovem seu público principal por permitir

identidade, vinculação, um universo da representatividade comum e quase universal.

Uma das características que diferenciam o Gapa-BA na formação de agentes pares é que sempre foi trabalhado outros conteúdos de maneira transversal que não fossem meramente vinculados ao HIV/Aids. A nossa formação de diferentes públicos na metodologia de agentes pares foi pautada por uma compreensão que não se podia falar em HIV/Aids sem conectar com as categorias de sexualidade, de gênero, de prática sexual, de direitos humanos e de modelos de desenvolvimento. A abordagem do Gapa-BA compreendia o HIV/Aids não apenas como mais uma doença a ser catalogada no CID e sim ligadas a desafios estruturais da sociedade e um tema estratégico, como um vetor de vulnerabilidades em situações de profunda desigualdade social.


Para aplicar a metodologia dos agentes pares, o Gapa-BA realizava uma busca ativa para a identificação da população vulnerável. No contexto das comunidades, fazíamos a investigação das vulnerabilidades existentes, quais equipamentos públicos estavam presentes e quais estavam ausentes, se haviam organizações comunitárias, como funcionavam e se já haviam respostas comunitárias locais da população daquele bairro, se haviam lideranças e se estas estavam ligadas a organizações.


O objetivo era sensibilizar, conversando sobre os riscos que o HIV/Aids representava e as possibilidades que um trabalho de prevenção e promoção da saúde em geral poderiam reverberar na diminuição de riscos prováveis de contágio. Um dos elementos que costuraram a atuação do Gapa-Ba em todos os períodos era a desconstrução dos estigmas relacionados a doença e as pessoas afetadas pelo HIV/Aids. O Gapa-BA funcionou nos seus primeiros anos como um agente da desconstrução dos mitos, preconceitos e discriminação relacionados aos riscos que as pessoas com HIV/Aids representavam para as comunidades.


A base da metodologia do agente par na instituição foi alinhar realidade local com os elementos constitutivos do modelo metodológico proposto, gerando sinergia para ampliação constante do número de pessoas formadas desde uma agenda mais ampla e em diálogo com as pautas das populações prioritárias com as quais interagimos. A ideia de agente par é de multiplicação da informação, de formas de acolhimento, alguém que está presente, que é um ponto focal para tirar dúvidas, para orientar, encaminhar para serviços e também alguém que vai formar outros multiplicadores para que o trabalho de promoção à saúde aos direitos não.


Após esse período da formação, o segundo momento é, na trajetória do Gapa-Ba foi de acompanhamento dos grupos formados e das ações realizadas, supervisionadas mensalmente, em que a instituição disponibilizava o material informativo, insumos diversos, preservativos e equipamentos que facilitassem as ações das/dos multiplicadoras/es. com vídeos para fazer palestras sobre HIV/Aids.


O trabalho com base na metodologia de agentes pares que o GAPA-BA realizou participou de pelo menos duas avaliações internacionais em diferentes momentos: pela organização inglesa “Save the Children”, num estudo sobre uso da metodologia para contextos escolares e em 2001, quando a agência holandesa ICCO realizou um estudo sobre impacto da metodologia de agentes pares com os jovens, em que aferiam a formação, atuação das lideranças, redução da transmissão do vírus HIV junto a este público e as condições de saúde e sociais dessas pessoas para medirem o sucesso do trabalho. Em ambos houve uma avaliação muito positiva da atuação promovida pelo GAPA-BA.